quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

É HORA DE INVESTIGAR OS INVESTIGADORES



Um policial federal divulga, pela internet, imagens de seu treinamento de tiro, em que o alvo é a imagem da presidenta da República. Não bastante comenta que é muito melhor treinar desse jeito.
Descobre-se que ao menos um preso, sob a responsabilidade da Polícia Federal, em Curitiba, teve escuta clandestina instalada em sua cela.
Um policial federal de presença constante nas detenções da Operação Lava Jato distribui um vídeo pela internet em que ameaça alguém, que presume ser detido nos próximos dias, de que apresse o seu tratamento odontológico, pois não há dentista nas instalações em que os presos permanecem. Um dia depois, a revista Veja divulga um vídeo com a informação de que o ministro da Justiça, a quem está ligada diretamente a Polícia Federal, visita o seu dentista em todas as viagens a São Paulo.
Trechos inteiros de depoimentos­­ sigilosos de alguns envolvidos na Operação Lava Jato são vazados para determinados órgãos de imprensa e publicados, como se o vazamento não constituísse um ilícito grave.
Que esculhambação é essa?
Algum de vocês ficou sabendo no que deram as apurações daqueles casos de indisciplina explícita, com afronta à autoridade constituída? Sabe que o policial Danilo Balas foi punido com quatro dias (isso!) de suspensão?
Para não avançar em outras avaliações jurídicas, basta lembrar que a Lei nº 8.112 (que trata dos servidores públicos civis da União)­­­ estabelece como dever "guardar sigilo sobre assunto da repartição”. Em outro dispositivo proíberetirar, sem prévia anuência da autoridade competente, qualquer documento ou objeto da repartição”, além de “valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública”. A revelação de segredo do qual se apropriou em razão do cargo é inclusíve punível com pena de demissão.
Sobre o segredo de Justiça, trata a Lei n° 9.296, em que a quebra de segredo é definida como crime. O Código Penal refere-se a “revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem”.
Mesmo na atividade privada, a CLT inclui a violação de segredo da empresa motivo para justa causa na rescisão do contrato. Ou seja, qualquer funcionário administrativo pode perder o seu emprego, sem direito a qualquer indenização, pelo fato de passar informações tidas como essencialmente sigilosas pela empresa que o contrata.
Isso quer dizer, independente da questão ética profissional, que é passível de demissão por justa causa o mesmo repórter que detém um desses depoimentos sigilosos, caso revele, sem autorização de seu editor, o conteúdo para um colega de órgão de imprensa concorrente.
O que está havendo com a Polícia Federal e com o Ministério Público em investigações como as da Lava Jato e da Zelotes entre outras operações atualmente em curso?
Ao lado de tudo isso, não escapa à observação do mais ingênuo leitor de jornais ou telespectador, mesmo que não questione a isenção dos órgãos da mídia, que as investigações tratam diferenciadamente os personagens e o fazem com viés inquestionavelmente partidário.
Agora, quem rasga o verbo e fala da postura da própria Polícia Federal é Armando Coelho Neto, com a autoridade de ex-presidente da Associação dos Delegados da Instituição.
Veja a sua entrevista ao conhecido repórter Humberto Mesquita, publicada por Fernando Brito no portal Tijolaço:
Pra mim, evidencia-se a politização – mais, a partidarização – da atividade de investigação. Além da crise de autoridade na Polícia Federal, de quem se espera a elucidação, entre outros crimes, de todos os processos de corrupção nas relações notoriamente promíscuas entre a iniciativa privada e as várias instituições do poder público no Brasília, especialmente a atividade política.
Chegou o momento de os políticos efetivamente comprometidos com essas investigações tomarem uma atitude para que elas possam realmente desnudar toda a realidade e não simplesmente submeterem-se a um jogo de interesses partidários, com vistas a influir no futuro político imediato.
O que o País espera é uma faxina e não mais um engodo.
Para isso, é preciso instalar-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito que traga à luz os meandros dessas investigações e quais as interferências que têm provocado desvios tão escandalosos.
Fernando Tolentino

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